"A humanidade tornou-se assassina de si mesma", diz Leonardo Boff

Em entrevista, teólogo afirma que quem nega as mudanças climáticas o faz "por maldade, estupidez, interesse no lucro" e que cabe ao ser humano devolver o equilíbrio do planeta. "Se a Terra está doente, nos faz doentes."



Segundo Boff, em nome do lucro, os humanos transformaram a Terra num matadouro. "Nós nos transformamos no Satã da Terra [...] Matamos animais, florestas, águas, matamos os pobres, os negros, os que têm outra opção sexual. Nos tornamos assassinos de nós mesmos", afirmou em entrevista à DW Brasil. O teólogo disse ainda que aqueles que negam as mudanças climáticas o fazem "por maldade, por estupidez, porque interessa a eles mais o dinheiro e o lucro".


Com doutorado em Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha, Boff foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos expoentes da Teologia da Libertação, corrente da Igreja Católica fundada na América Latina que enfatiza a ética social cristã em defesa dos pobres e oprimidos, e que teve influência do marxismo. Boff também tem histórico como assessor de movimentos populares e é autor de vários livros sobre temas ligados à teologia, filosofia, ética e ecologia.


DW Brasil: O senhor está acompanhando uma romaria, que também tem presença de movimentos sociais, na cidade que sofreu o impacto de uma tragédia humanitária e ambiental. Como o senhor enxerga o papel da Igreja Católica e sociedade civil neste cenário?

Leonardo Boff: Este cenário coloca em xeque o modelo de produção e o tipo de civilização que nós temos - que não coloca a vida no centro, mas o lucro. Ela [a civilização] sacrifica a vida humana, a vida da natureza, dos rios, em função dos lucros.


Este momento é de chorar os mortos, porque houve um crime, eles sabiam do risco e não tomaram as medidas necessárias para evitar esse morticínio de pessoas. Mas, ao mesmo tempo, é a ocasião para a gente refletir sobre esse tipo de produção, esse tipo de sociedade que só pensa no lucro e bens materiais, e que não pode continuar.


A vida está no centro. E o ser humano tem coração para sentir o sofrimento do outro, de se solidarizar com aqueles que sofrem e entender que, além das religiões, além dos partidos, vale a dignidade do sofrimento. E a solidariedade com eles.


Há pouco tempo, o Sínodo para Amazônia, convocado pelo papa Francisco, pediu que os cidadãos se envolvam mais em questões políticas. O que o senhor pensa sobre isso?

O papa já havia sido inteligente na sua Encíclica [documento papal escrito em 2015 com o título de Laudato Si, que falou sobre o cuidado que os cristãos devem ter com a Terra]. É uma ecologia íntegra, que pega o ambiente, pega política, a mente, as ideias, os sonhos, as escolas, os valores, e pega também a dimensão mais familiar, corriqueira, como organizamos nosso alimento, nossa casa, nossa vida, e, no fim, a dimensão espiritual. Saber que abraçando o mundo estamos abraçando a Deus.


O papa despertou em nós a consciência sobre o cuidado da casa comum. Ou nós cuidamos da água, das plantas, dos animais, cuidamos uns dos outros, ou vamos ao encontro de uma grande catástrofe ecológica e social.


A Terra está doente, ela está mostrando isso. Essas chuvas aqui em Belo Horizonte e região… Em todas as partes há secas enormes, nevascas nuncas vistas… A Terra perdeu o seu equilíbrio e pertence ao ser humano devolver o