Um século de secas: Livro faz um relato crítico e analítico de mais de 100 anos de políticas hídrica

A obra “Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?”  é um relato crítico e analítico da história de mais de 100 anos de políticas hídricas implementadas na região semiárida brasileira. A abrangência temporal da pesquisa, bem como das instituições analisadas, possibilitaram uma visão ampla dos fatores comuns às ações de mitigação dos impactos da seca durante o período.


Por que as inúmeras políticas implementadas na área semiárida do Brasil, durante mais de um século, não trouxeram mudanças significativas para a região? Qual o motivo de o fenômeno continuar tomando proporções de desastre natural, causando prejuízos generalizados à economia? Por que obras intensamente propaladas como soluções para a seca (açudagem, irrigação, perfuração de poços, Projeto de Integração do Rio São Francisco, etc) não modificaram ou talvez não alterem o cenário socioeconômico da região? Em “Um século de secas”, os autores buscam na história explicações para os fatores predominantes à tradicional inefetividade das ações de mitigação dos impactos do fenômeno. Além de oferecerem uma compreensão crítica e abrangente sobre a área semiárida do Brasil, no passado e no presente, apontam caminhos e traçam estratégias político-institucionais para promover a gestão sustentável da seca, no contexto de possíveis mudanças climáticas.


O livro “Um século de secas” foi escrito pelo meteorologista Humberto Alves Barbosa, doutor em Solo, Água e Ciências Ambientais, pela Universidade do Arizona, especialista em monitoramento ambiental das secas, atualmente autor de relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, juntamente com a historiadora e jornalista Catarina de Oliveira Buriti, doutora em Recursos Naturais, com experiência em pesquisas e divulgação científica no Semiárido brasileiro.


A partir de um amplo levantamento documental, associado a dados climáticos, meteorológicos e séries históricas temporais, os autores descrevem os vários eventos de seca ocorridos no período, relacionando-os com as ações políticas lançadas como capacidade de resposta governamental para atenuar as consequências do fenômeno climático sobre a população mais vulnerável.


Políticas hídricas para a seca

O livro “Um século de secas” está estruturado em três fases históricas de políticas para a seca:


1) Solução hidráulica (1909-1940): aborda o processo de institucionalização das primeiras políticas hídricas implementadas pelo Estado brasileiro para atenuar os impactos da seca, por intermédio da pioneira Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), depois Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Em diálogo com a História da Ciência e da Técnica, destacou-se o modo como concepções científicas específicas influenciaram a capacidade de resposta institucional dos governos frente à seca. Também foram analisados os limites da implementação dessas políticas, no que diz respeito à formação educacional dos produtores rurais e ao preparo da população para se apropriar das inovações tecnológicas. As grandes obras de açudagem e de perfuração de poços contribuíram para consolidar uma infraestrutura hídrica de armazenamento de água ainda inexistente na região. Todavia, juntamente com as iniciativas de irrigação na área seca do Nordeste, essas ações foram insuficientes para transformar o modo como a população atravessava a seca;


2) Políticas de desenvolvimento econômico (1950-1980): nessa fase, os autores destacaram a influência do economista paraibano Celso Furtado na implementação de um projeto político de desenvolvimento para a região, a partir da Superintendência de Desenvolvimento para o Nordeste. Ressaltaram os limites e as contradições que marcaram a época, bem como os desafios e entraves a um projeto de transformação, por meio da proposta de industrialização da região e do acesso à água e à terra, de forma socialmente mais justa.