Enquanto Estado aposta no agronegócio, agricultura familiar sertaneja luta pela existência

ENTREVISTA ESPECIAL COM KLENIO COSTA - Pesquisador detalha como os modos de vida de pequenos produtores do sertão, apesar de preteridos pelo poder público, resistem e revelam melhor exemplo de relação entre ser humano e ambiente

Foto: Acervo Pessoal Klênio Costa

No mundo dos negócios se vende a ideia de que ‘o agro é pop’, mas durante a pandemia ficou mais do que claro o papel central da agricultura familiar no combate à fome. Não é à toa que, recentemente, o sociólogo José de Souza Martins, em entrevista à IHU On-Line, chegou a considerar que a agricultura familiar é a melhor ação brasileira desde a abolição da escravidão. O jovem sociólogo Klenio Costa conhece de perto essa realidade e concorda com Martins. Mas, observa:


“reconheço que existem arranjos de agricultura familiar que logram sucesso. Entendendo esse sucesso como a construção de um projeto autônomo de vida e trabalho no campo. Porém, entendo também que a prevalência da grande propriedade determina que uma grande massa de agricultores seja mantida sob o julgo de ‘coronéis’. A exploração política e econômica leva estes agricultores familiares a sobreviver em condições limites.”

Klenio traz essa perspectiva a partir da pesquisa realizada em Sitio Carretão, no município de Petrolina, em Pernambuco. Mergulhado nessa realidade, ele observa como o pequeno produtor familiar sertanejo representa um bom exemplo da relação entre humano e ambiente, onde mesmo com toda dureza do clima da região se consegue produzir. “As condições nas quais os agricultores sertanejos estão inseridos são muito adversas e para garantir sua manutenção e a reprodução de seu modo de vida, eles sempre estão envolvidos em lutas por maior autonomia de seu projeto de vida”, completa, em entrevista concedida à IHU On-Line.

O pesquisador ainda destaca que essas lutas compreendem a união de saberes locais, passado a gerações, e também certa modernização a partir do associativismo e lutas políticas. “Contando com sua sabedoria, os agricultores familiares coordenam suas atividades do sítio com o intuito de, ao menos em parte, aproveitar o máximo possível os recursos. Isto significa que as distintas produções do sitio (extrativismo, lavouras e a pecuária) podem ser insumo para uma outra, bem como podem ser comercializadas e consumidas pela família”, explica.

Para Klenio, essas lutas poderiam ser menos duras se contassem com o apoio do Estado que, ao contrário, investe nas lógicas das grandes propriedades. “O Estado brasileiro sempre apoiou e financiou o latifúndio rural, afirmo isso tendo em vista a história de ocupação e desenvolvimento econômico do sertão nordestino”, observa. “Na região tal como em outras partes do Brasil, a agricultura familiar camponesa de forma recorrente tem suas capacidades bloqueadas e isto produz um quadro social e econômico de pobreza rural generalizada”, acrescenta.

Mas, para ele, a própria resistência da agricultura familiar revela que realmente esse pode ser um caminho. “O campesinato, ainda que vivendo em condições de subordinação, constitui um ato social que permanece produzindo de modo autônomo, renovando a atividade laboral por meio do constante aprendizado e da criatividade, bem como reproduzindo e projetando seu projeto de vida e trabalho familiar no tempo e no espaço”.


Klenio Veiga da Costa possui graduação em Comunicação Social pela Faculdade de Filosofia de Campos, graduação em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e graduação em Sociologia pela Universidade Norte do Paraná. Ainda é mestre em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente é sociólogo do Centro Alternativo de Formação Popular Rosa Fortini.

Veja a Entrevista Completa em: http://www.ihu.unisinos.br



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