Dossiê agrotóxico: O que a liberação recorde de químicos e a guerra de palavras têm a ver com você

Atualizado: 20 de jan. de 2020

O herói Rick Grimes, da série The Walking Dead, está para os zumbis assim como os críticos dos agrotóxicos estão para a liberação em massa destes produtos, que aconteceu em 2019. Para especialistas, ativistas e outras pessoas preocupadas com a qualidade dos alimentos que ingerem, o número recorde de novos pesticidas aprovados pela Anvisa soa como um tsunami de mortos-vivos.

O ataque é especialmente assustador para as abelhas, já que a última leva de novos registros colocou mais 57 produtos no mercado no dia 3 de outubro, quando ironicamente se comemora o Dia Nacional da Abelha — entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, foram registradas as mortes de 500 milhões destes polinizadores por conta do uso de agrotóxicos.


No total, já são 382 registros de novos agroquímicos no mercado brasileiro. Mas o número pode chegar a 410 se considerarmos que 28 desses registros, que entram na conta de 2018 do Ministério da Agricultura, só foram publicados no Diário Oficial em janeiro de 2019. Seja qual for a quantidade escolhida, o número de novos registros é sem precedentes na história do Brasil, considerando o período de janeiro a outubro.

Segundo o diretor-presidente da Anvisa, William Dib, a medida visa acelerar os processos de liberação, esvaziando a fila de agrotóxicos à espera de um mercado e modernizando os pesticidas. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Dib afirmou: “Vivíamos num cinismo. Você usa um agrotóxico extremamente perigoso porque o novo que é mais evoluído está na fila há oito anos. Aí eu tiro da fila e vocês gritam. É o seguinte: agora conseguimos encontrar um equilíbrio. Temos os registros em dia e agora vamos estudar os mais críticos e sua retirada”.


Além disso, para o engenheiro agrônomo Pedro Yamamoto, do Laboratório de Manejo Integrado de Pragas da Esalq/USP, o número excessivo de novos produtos não significa um aumento no uso. “A maioria são produtos técnicos que um dia podem vir a se tornar produtos comerciais. Poucos realmente são novos e muitos são genéricos”, explica. “O lançamento de genéricos tem a vantagem de aumentar a competitividade e melhorar os custos ao produtor. O que alarma é não termos produtos novos sendo lançados.”


O agrônomo Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, concorda com essa falta de diversidade: “Quando você olha o perfil desses produtos, percebe que são mais do mesmo — e do mesmo que é muito perigoso”. Segundo ele, a fila de registros nunca atrapalhou a demanda por agrotóxicos. “Infelizmente, nunca vi faltarem esses produtos no mercado. Sempre teve um abastecimento bem organizado e estruturado.”

Ao comparar o Brasil com seis dos maiores países exportadores de produtos agrícolas do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), um levantamento feito pela Folha de S.Paulo mostrou que, dos 96 ingredientes ativos que fazem parte dos agrotóxicos liberados até setembro, cerca de 30% são proibidos na União Europeia (UE), ou 28, em números absolutos. Já na Austrália são 36; na Índia, 30; e 18 no Canadá. Os Estados Unidos proíbem apenas três dos 96 ingredientes liberados aqui.