Coletivo Marias Também Têm Força facilita acesso de mulheres rurais a Lei Maria da Penha

Mulheres rurais realizam denúncia de situações de violência de gênero, por meio de mensagens de áudios enviadas via whatsapp e recebem orientação, acolhimento e direcionamento para as unidades competentes


Karinny Oliveira, filha de costureira, natural de uma geração educada para casar no modo tradicional, aos 18 anos, formou a sua própria família. O marido era um promotor de justiça. A relação foi marcada por diversos tipos de violência: Psicológica, caracterizada por expressões do tipo “você é burra porque não sabe a bíblia”; Sexual, certa vez foi obrigada a ter relações sexuais em “uma determinada posição”, da qual ele gostava e costumava praticar fora do casamento; e física, no ano de 2006, ela foi agredida pelo ex-companheiro no meio da rua, “diante de várias pessoas”, relembra Karinny.


A agricultora Severina Maria da Silva, nasceu na zona rural de Caruaru, região do Semiárido pernambucano e, aos 9 anos, sofreu o primeiro de uma série de estupros dentro da própria casa. Foram 38 anos de abusos sexuais dos quais nasceram 12 filhos. Quando uma das filhas foi assediada pelo mesmo algoz, Severina teve medo e encomendou a morte do agressor. Há dez anos, período em que a Lei Maria da Penha já vigorava, a agricultora foi absolvida por unanimidade pela Justiça. O algoz de Dona Severina era o próprio pai.


Além da vida marcada pela violência, Karinny e Severina têm em comum o fato de terem convertido a sua dor em força para fazer valer na prática o ditado: “uma Maria só não faz verão”. Elas fundaram o Coletivo Marias Também Têm Força, um grupo, que promove atendimento a mulheres indígenas, agricultoras, trans, profissionais do sexo, ciganas, caboclas, quilombolas em situação de violência. As mulheres chegam ao grupo, por meio dos Plantões Live Tira Dúvidas sobre Violência.


São sessões virtuais realizadas na rede social Instagram, que, além de Karinny, que hoje é formada em Direito e professora, contam com outras lideranças que atuam no combate à violência doméstica. Os eventos virtuais, que tiveram início na pandemia, são dedicados a tirar dúvidas, explicar as formas de violência e trazer orientações sobre a Lei Maria da Penha. Após assistirem às lives, as mulheres fazem contato via mensagem privada e iniciam o atendimento.


“As denúncias mais comuns que recebemos são de violência doméstica e de estupro de vulnerável. As mulheres rurais que não sabem ler e escrever, mandam a denúncia em áudio e a gente faz isso através de áudio. Em Pernambuco, tem 184 municípios, destes, apenas 10 tem equipamento em rede [de enfrentamento à violência de gênero]. O restante fica descoberto e o coletivo está contribuindo para diminuir essa falta de acesso”, explica.

Formação e articulação política - Outra ação forte do recém criado coletivo é a formação sócio - política, que possui um caráter educativo e preventivo e consiste em levar informação de qualidade às mulheres para empoderá-las em relação à conquista de direitos a uma vida livre de violência. Ao longo do mês de novembro de 2020, o grupo realizou o I Fórum Transnacional do Coletivo Marias Também Têm Força, abordando o tema “Mulheres sobreviventes da Violência”.


Realizado no modo online, o evento reuniu mulheres das cinco regiões do país, dentre as quais lideranças feministas da sociedade civil organizada, do poder legislativo e do meio acadêmico. “Foram abordados 11 eixos temáticos, sendo o primeiro Mulher Rural - Tecendo saberes para o bem viver, que pautou a questão da violência de gênero no campo e contou com a própria dona Severina como convidada”, complementa.


Hoje, o Coletivo está em fase de registro jurídico. Após esta etapa, o objetivo é captar recursos para transformar o espaço em uma casa de acolhimento dedicada a receber as mulheres vítimas de violência que realizam a denúncia e não têm para onde ir. No mês de outubro, o coletivo irá lançar a primeira parte do livro Práti