Agroecologia frente às pandemias modernas

“É necessário interromper um modelo agroindustrial que gera enormes impactos socioambientais e danos irreparáveis à saúde humana e não humana, por meio de diferentes pandemias. É por isso que a agroecologia, mais do que uma alternativa, é uma necessidade para enfrentar a atual crise civilizacional, que mais uma vez se deixa ver com o surgimento do coronavírus”, escreve Andrés Kogan Valderrama, sociólogo, em artigo publicado por OPLAS, 18-03-2020. A tradução é do Cepat.

Foto: Acervo AGENDHA

Eis o artigo.


Em meio a uma pandemia causada pelo chamado coronavírus (Covid-19), que tem os grandes meios de informação comentando sobre o número de pessoas infectadas, falecidas e as medidas para interromper sua expansão mundial (fechamento de fronteiras, estado de exceção, quarentena, isolamento social), pode-se ver como o foco está na prevenção, contenção e busca de tratamento.


No entanto, no que diz respeito às causas, embora se acredite ter uma origem zoonótica, como é o caso do consumo de sopa de morcegos em mercados chineses, o problema de fundo não passa pelo consumo de animais silvestres, como bem expõe a pesquisadora Silvia Ribeiro, mas pela própria destruição dos habitats daqueles seres vivos pela agricultura industrial, o que gera as condições para as aceleradas mutações virais. Isto, acompanhado pelo uso e abuso de antibióticos para o negócio da carne (engorda e prevenção de infecções em animais).


Em outras palavras, causas estruturais, assim como outros vírus (gripe aviária H5N1, gripe suína H1N1 e a doença da vaca louca), estão relacionadas a um sistema agroalimentar que se sustenta na ideia antropocêntrica de que certos animais (porcos, vacas, galinhas) são meros objetos para a exploração. Consequentemente, como também afirma o pesquisador Rob Wallace, estamos cada vez mais inseridos em um Planeta Fazenda, onde o agronegócio busca finalmente concentrar a produção de alimentos em todo o mundo, sem se importar minimamente, seja através da apropriação de terras, desmatamento e uso de agrotóxicos.


Consequentemente, o problema vai muito além do que suscita uma visão sanitarista, centrada na saúde pública, mas, sim, está em questionar um sistema de vida atual, que declarou guerra à Natureza, ao acreditar estar acima de seus limites. Portanto, há uma necessidade urgente de políticas que coloquem no centro o cuidado com a vida, capazes de recuperar conhecimentos não apenas científicos e que permitam criar sistemas alimentares sustentáveis.


Por tudo isso, a agroecologia é a melhor alternativa frente à agroindústria atual, pois é capaz de entrelaçar saberes provenientes das chamadas ciências naturais e ciências sociais, rompendo assim a dicotomia cultura-natureza. Por isso, concebe o mundo a partir de uma perspectiva socioecológica, onde tanto as desigualdades sociais como as ambientais fazem parte do mesmo.