Agricultores atingidos por barragens usam energia solar para irrigar hortas agroecológicas

Programa beneficia 240 famílias com placas fotovoltaicas que alimentam sistema de irrigação automatizado; produção agroecológica gera alimento, renda e reflorestamento; represamentos das hidrelétricas afetam os rios e matam os peixes

Por Nanci Pittelkow


Um dos últimos projetos financiados pelo Fundo Amazônia viabilizou a instalação de placas fotovoltaicas para 240 famílias em território amazônico, nos estados do Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. As placas solares foram dimensionadas para produzir a energia que alimenta o sistema de irrigação de hortas batizada como Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais).


“Essa conquista começou com uma demanda antiga de famílias que foram prejudicadas pela construção de barragens”, conta Rogério Paulo Hohn, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que há trinta anos busca proteger as comunidades da violência e dos passivos sociais e ambientais de empreendimentos como os das hidrelétricas.


“Como muitas dessas obras foram financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apresentamos uma pauta junto ao banco questionando a liberação de crédito prioritariamente para grandes empresas, com poucas iniciativas para as populações atingidas”, afirma Hohn. Os executivos do BNDES apontaram o caminho do Fundo Amazônia, também gerido pelo banco.


O MAB então formatou o projeto Uso de tecnologias sociais para redução do desmatamento, aprovado em 2017 e implementado pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (Adai), com recursos do Fundo Amazônia. Além da produção de energia fotovoltaica para a irrigação das hortas, a ação promoveu a capacitação técnica das famílias para a produção agroecológica e para a comercialização do excedente da produção.


Um dos beneficiados é o agricultor Daniel Schlindwein, que pela segunda vez precisou se mudar por causa de uma hidrelétrica. Ele e a família moravam em Cascavel (PR), quando tiveram de sair para dar lugar ao lago da usina hidrelétrica de Itaipu, na década de 70. Em Sinop (MT) ele conseguiu se estabilizar em 1997 em um assentamento da reforma agrária. Dos 38 mil hectares do assentamento, 6 mil foram requisitados para a Usina Hidrelétrica de Teles Pires.


“Com o discurso de que ‘é necessário produzir energia’ eles desconsideram a população”, diz Daniel. “Essa é uma região rica na produção de grãos, como soja, milho, girassol. Pelo valor de mercado estima-se que um hectare na região valha entre 500 e 1.000 sacos de soja, ou seja, a partir de R$ 75 mil por hectare.” Segundo o agricultor, eles receberam a oferta de R$ 3.900,00 por hectare.


“Tivemos cinco dias para decidir e, se não aceitássemos, o pagamento seria feito em juízo e teríamos que resolver na justiça”. Outra indignação é com o estrago que o represamento das águas provoca na ciclo da vida natural. “Mataram o rio, o represamento quebra o ciclo de reprodução, então não tem mais peixes”.


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