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AGENDHA e a Associação da Comunidade Indígena Xucuru Firmam Parceria para Desenvolver Projeto de Fitoterápicos em Pesqueira

No dia 23 de agosto, a Associação da Comunidade Indígena Xucuru, localizada no território indígena Xukuru de Ororubá, no município de Pesqueira, em Pernambuco, celebrou com a AGENDHA a assinatura do termo de subvenção para o Projeto Fitoterápicos - Bioma Caatinga.





Com a assinatura do acordo, a associação dará início as ações do Projeto: Valorizando os encantamentos e saberes tradicionais da Medicina Sagrada – Jeti Radyá, que será desenvolvido por meio da Chamada Fitoterápicos – BRA/18/G31, em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

 

O Projeto Fitoterápicos - Uso Sustentável e Inovador de Recursos da Biodiversidade, foi criado com o intuito de melhorar os benefícios globais da Biodiversidade, assim como diversos co-benefícios nacionais e locais resultantes do uso sustentável, acessível e inovador de plantas medicinais da flora brasileira. Ele visa fortalecer os sistemas produtivos com base em espécies de plantas medicinais para promover o acesso a mercados, o desenvolvimento local e a saúde nos territórios.

 

A cerimônia de abertura aconteceu no Terreiro do Povo Xucuru, situado Aldeia da Boa Vista, Território Indígena Xukuru do Ororubá, Cidade Pesqueira/PE, e contou com a presença dos representantes do Coletivo Jupako Kreka: Cristiano Feitosa de Araújo, Jamile Santos da Silva, Ângela Neves Pereira, Kleber Henrique da Silva, Ramon Borges Cordeiro, Iran Neves Ordônio, Edgar Oliveira de Almeida, Rayane Feitosa de Araújo, Maria Laudeane Santos do Nascimento, Jarbas Gonçalves da Silva Filho. E, com os pesquisadores indigenistas Louise Gabriele Bezerra Galindo e Fabrício Brugnago.

 

Este projeto está sendo desenvolvido na região da Boa Vista, que abrange a Casa da Semente, onde ocorrem atividades, e a mata da Boa Vista, onde ocorre o plantio e a coleta das plantas. Ambas essas áreas são reconhecidas como espaços coletivos do povo Xukuru.

O objetivo principal é promover uma série de ações, encontros, debates e movimentos colaborativos e solidários que contribuam para a realização do conceito de Limolaygo Toype, conhecido como Bem Viver Xukuru. Isso será alcançado por meio de práticas regenerativas que visam a cura tanto do ambiente natural como da comunidade Xukuru, além de reverenciar a Natureza Sagrada.


A Associação da Comunidade Indígena Xukuru foi estabelecida em 1991, em meio a esforços para retomar o território tradicional do Povo Xukuru de Ororubá. Esta associação é a instituição jurídica que desempenha um papel crucial no modelo de organização sociopolítica do Povo Indígena Xukuru. Ela é responsável por coordenar e mobilizar internamente programas e projetos com ênfase nas áreas educacionais, ecológicas e culturais.


O Coletivo Jupago Kreká, fundado em 2002, é um braço da Associação da Comunidade Indígena Xukuru e se dedica principalmente à regeneração da mata nativa e à promoção de discussões sobre agricultura sagrada, com base na cultura de encantamento. Esse coletivo valoriza ações que estão profundamente ligadas à terra mãe.


O Jupago promove práticas sustentáveis e está atento às relações entre o uso do território e a fidelidade aos princípios do Limolaygo Toype, a filosofia de vida Xukuru que busca o Bem Viver. No contexto deste projeto, o Coletivo Jupago Kreká desempenhará um papel fundamental na sua implementação e condução.


“A gente traz isso para o projeto, regenerar, trazer a saúde ao território, para poder o território, reino grandeza do vento, como a gente chama, ofertar saúde através dos seus elementos sagrados: casca, folha, raiz, para que a gente possa processar com muito afeto, com muito cuidado, e trazer ou potencializar de fato o que é a saúde para o Povo Xucuru. Que ela traz duas coisas que são importantes, que é cuidados e ancestralidade. Então, Jupako Kreká ele tem essa missão de promover a encantaria, ou seja, uma cidadania onde a gente tem o direito da floresta e o nosso direito de ter floresta encantada e com saúde, e isso é a essência do projeto que a gente tenta desenvolver, ou melhor que estamos desenvolvendo aqui no território Xukuru”. Iran Xukuru

 

Atualmente, a associação em parceria com o Jupago está liderando iniciativas com o propósito de identificar, sistematizar e compartilhar práticas sustentáveis. Essas ações abrangem diversos domínios, incluindo saúde, medicina tradicional, alimentação, técnicas de regeneração ambiental locais, bem como a valorização dos conhecimentos das mulheres e dos anciãos, com ênfase na transmissão dessas sabedorias para as gerações mais jovens.

Os processos produtivos são conduzidos pelos associados, com o objetivo principal de restaurar a Mata da Boa Vista. Isso é realizado por meio de acordos coletivos de gestão ambiental e territorial, como por exemplo, a delimitação e o cercamento de algumas áreas com intuito de proteger contra a invasão de animais de grande porte como o gado.


Edvalda Aroucha enfatizou a importância de tomar decisões levando em consideração a logística, os custos, os benefícios e a distância, uma vez que esses elementos podem se transformar em desafios significativos quando se trata de envolver as famílias associadas.

Vale ressaltar que o conhecimento medicinal essencial é fornecido pelas mestras e mestres Xukuru. O trabalho conjunto combina saberes tradicionais com técnicas modernas de preparo de fitoterápicos e processamento artesanal de alimentos obtidos da mata.


Todas as matérias-primas utilizadas nos preparados são oriundas de coletas na mata ou cultivadas de forma sustentável e agroecológica. Um aspecto importante desse processo é a abordagem de cura holística, na qual se reconhece que a saúde está intrinsecamente ligada ao corpo, mente, espírito e ambiente, sendo esses elementos indissociáveis. Para preservar a natureza, são adotadas práticas de manejo responsável, como a poda de galhos para obtenção de casca, em vez de extrair a casca do tronco, garantindo assim a preservação da planta. A coleta de materiais é realizada em colaboração e com a orientação das mestras da comunidade.


“Esse projeto vem fortalecer cada dia mais o nosso conhecimento, o nosso saber, onde a gente vai trazer mais mulheres, pra trabalhar com aquilo que elas gostam, aquilo que a gente valoriza, como o costume, como o uso de manipulação de plantas medicinais. E, esse projeto vai nos fortalecer, com a compra de materiais pra gente trabalhar, pra que essas mulheres tenham uma renda maior na sua casa, ensinar e sempre está fortalecendo”. Ângela Neves Xukuru.

 

No espaço de exposição e comercialização, encontra-se uma variedade de produtos, desde o artesanato a itens de cuidados medicinais-espirituais. A produção abrange uma ampla variedade de produtos que incorporam o conhecimento tradicional indígena. Entre os produtos, incluem-se “sabonetes, shampoos, cremes dentais, pós-dentais, lambedores, tinturas, cremes dermatológicos, banhos de assento, óleolatos, hidrolatos, óleos essenciais, banhos de ervas, fumos e defumadores. Além disso, na categoria de alimentos, produzimos conservas, geleias, polpas e produtos desidratados de origem vegetal”. Informou Bela, como é conhecida.

 

A sabedoria ancestral se entrelaça harmoniosamente com o saber contemporâneo, orientando as novas gerações na interpretação dos sinais oferecidos pela natureza. Este conhecimento abraça os processos de cura, resultando de uma compreensão profunda da saúde através do uso medicinal das plantas.


“E só uma coisa Iran, a gente, a AGENDHA, por princípio, tende também a respeitar muito essa inspiração toda, essa cosmonucleação que vocês pensaram, imaginaram, viveram, pensam e imaginam. Isso tem o saber tradicional, tudo isso que a gente também não tem”, afirmou Edvalda.


Desse modo, a abordagem em relação ao uso de plantas medicinais assume um papel de extrema relevância no contexto da preservação das tradições de conhecimento do Povo Xukuru, o que se torna ainda mais crucial diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.


“Entendemos que, em vez de meramente comercializar produtos, estamos compartilhando histórias e saberes ancestrais de nossa cultura, que detêm o poder de cuidar e curar. Essa partilha fortalece o principal resultado do projeto, que é a promoção da regeneração ambiental e a preservação da agrobiodiversidade da nossa mata da Boa Vista”, ressalta Iran Xukuru.

Visita a Mata da Boa Vista


Durante a visita à Mata da Boa Vista, Iran Xukuru destacou que a região que estávamos conhecendo é caracterizada por quatro pontos de grande significado para o seu povo, os quais servem como pilares organizacionais para orientar o uso e ocupação do espaço. Entre esses pontos, um deles é conhecido como "Bom Assombro". Além disso, há a "Linha D'água Juremá", a "Encantação" e o "Domínio Silvestre", este último situado na Casa das Sementes.

O manejo cuidadosamente adotado pelo Povo Indígena Xukuru é profundamente influenciado por essa topografia sagrada e pelo respeito aos guardiões ancestrais deste território.


“A origem do nome ‘Bom Assombro’, se deu por que além da boa sombra que as árvore dessa região oferecem, também chamamos assim por que as pessoas que passavam por aqui tinham medo, até mesmo os estudantes. Porque eles viam luzes, tipo o fogo corredor. Os pais tinham que esperar eles na estrada. Então, essa área era conhecida como mal assombrada. Então, a gente pensou, se tem luzes lá, são dos encantados, essas luzes só podem ser do bem, né? Então, ficou ’bom assombro’”, afirmou Iran.

A regeneração produtiva é um dos princípios valorizados no contexto do projeto, ele informa que o trabalho desenvolvido gira em torno de preservar e promover a diversidade das plantas, inclusive aquelas que são culturalmente consideradas como "mato". Plantas como carrapitaia e meiru são cuidadosamente cultivadas e exploradas por suas propriedades medicinais e culinárias.


A diversidade de plantas na Mata da Boa Vista é notável, incluindo espécies como cajá, jaca, abacate, mororó e muitas outras. Uma experiência particularmente interessante é o consórcio entre o fumo brabo e a fava, que resulta em uma variedade de plantas coexistindo no mesmo espaço, evidenciando a importância da arquitetura das plantas na criação de um desenho agroecológico eficaz.


Além da diversidade de plantas, Iran explica que a mata abriga uma riqueza de variedades tradicionais, como o feijão "lab lab" ou "cabicuço", amplamente utilizado na agroecologia local, servindo não apenas como alimento, mas também como adubo verde, contribuindo para a fertilidade do solo. Além disso, na área do “bom assombro”, identificamos três variedades: o marrom, o branco e o preto, bem como o feijão de corda de moita.

Ele ressalta que um dos grandes desafios para a preservação dessas espécies, é a necessidade de manter os animais de grande porte afastados das áreas de plantio, devido ao seu peso e impactos do pisoteio nas mudas e na germinação das sementes.


Apresentação do Plano de Ação


A reunião teve como principal objetivo revisar e discutir o plano de ação apresentado pelos participantes, abordando detalhes sobre a abertura da conta e, compartilhando o número da conta relevante. Além disso, foram analisadas as metas estabelecidas e o progresso feito até o momento, bem como as tarefas pendentes.


A orientação sobre o sistema de prestação de contas não foi considerada um problema, dada a experiência dos participantes em processos digitais e informáticos. Também foi discutida a necessidade de fotografar o local onde o projeto será implementado. O foco da discussão foi o primeiro projeto a ser gerenciado, que exige um nível mais detalhado de organização para a prestação de contas.


A reunião se concentrou em detalhes cruciais relacionados ao plano de ação e aos projetos em andamento. A presença de participantes com experiência em tecnologia digital e informática trouxe confiança em relação ao sistema de prestação de contas. O registro fotográfico do local e a ênfase no primeiro projeto a ser gerenciado demonstraram a dedicação à eficiência e à organização. O software de AGENDHA também foi discutido como uma ferramenta importante para o acompanhamento financeiro.


Fabiano Lima (AGENDHA) destacou os principais pontos do Plano de Ação: “esse plano de ação, nós estamos fazendo essa devolutiva, por que teve algumas alterações no layout dele, foi solicitado pelo PNUD que ele seja simplificado, além de esclarecer alguns outros pontos como, por exemplo, o período de repassa dos recursos, que será de 60%, 30% e 10%, a partir de como as ações sejam realizadas, afirmou ele.


“Além disso, quanto à quantificação dos resultados por etapa, permita-me dar um exemplo, a questão da área em metros quadrados. O projeto prevê 5 mil metros quadrados e, portanto, desejavam essa quantificação por etapa. Ajustei isso de acordo com os recursos disponíveis para cada etapa. Queremos discutir com vocês se esse valor está realista ou não. Caso não esteja, faremos os ajustes necessários antes de apresentar o relatório para aprovação. Gostaríamos de saber se vocês concordam com esses ajustes ou se validam o valor existente, compreende?” Continuou Fabiano.

Fabrício Bugnago - representante do Povo Indígena Xucuru - esclareceu que para à atividade de implantação de meio hectare, eles não tiveram como esperar a confirmação do início do projeto, ou seja, para garantir os processos de regeneração, foi preciso iniciar alguns plantios devido ao período mais adequado para plantar:


“já iniciamos esse processo, incluindo mutirões. Portanto, a quantificação por etapa pode não ser viável, pois às vezes é necessário cobrir toda a área de uma vez, mas a demanda varia, seja na implantação inicial, na manutenção posterior, entre outros fatores. Isso depende muito da dinâmica do espaço”.

“Embora métricas fixas possam não se aplicar facilmente, estamos dispostos a fazer adaptações, especialmente porque temos uma área de cultivo aqui. Não fazia sentido esperar, pois também dependemos do tempo do processo de regeneração. Nossa área inclui tanto agrofloresta quanto trilhas de plantios, que estamos desenvolvendo. Portanto, precisamos considerar como ajustar essas medidas. Embora trabalhemos com produção por hectare, estamos abertos a ajustes conforme necessário”. Afirmou Iran Xucuru (Coletivo Jupako Kreká)


Treinamento e Plataforma de Monitoramento


Fabiano Lima (AGENDHA), compartilhou seu conhecimento e experiência no treinamento para a utilização da plataforma de monitoramento das ações desenvolvidas pelo projeto.

Essa etapa representou um momento significativo de aprendizado e capacitação, no qual Fabiano Lima guiou os participantes através de todas as funcionalidades e recursos da plataforma. A abordagem focou em mostra as funcionalidades da plataforma na prática e permitiu que a diretoria da associação assimilasse rapidamente a navegação e a utilização plena de suas capacidades.


Mais do que apenas uma introdução técnica à plataforma, Fabiano enfatizou a importância do monitoramento contínuo das ações do projeto e como a plataforma poderia se tornar uma ferramenta inestimável nesse processo. Ele ressaltou como as informações coletadas e as análises geradas pela plataforma poderiam ser usadas para embasar decisões informadas e ajustar estratégias conforme necessário.


No decorrer do treinamento, Fabiano Lima não se limitou apenas à parte técnica da plataforma; ele também compartilhou insights sobre a gestão do Projeto e, permitiu que os participantes realizem a prática com o sistema. Isso contribuiu para o desenvolvimento de habilidades adicionais entre os membros da equipe, fortalecendo ainda mais a capacidade da organização em atingir os objetivos do projeto. Ao final do treinamento, os participantes estavam familiarizados com a plataforma de monitoramento sugerida pela AGENDHA.


Atualização sobre Próximas Etapas e Compromissos


A equipe da AGENDHA encerrou o encontro agradecendo e compartilhando alguns últimos informes sobre o progresso alcançado até o momento. “No âmbito de um projeto de grande relevância como esse, gostaríamos de compartilhar algumas considerações importantes em relação ao andamento do mesmo. O sucesso até agora não seria possível sem a colaboração fundamental de todos os envolvidos”, afirmou Edvalda Aroucha.


Com uma equipe experiente, o projeto conseguiu avançar além das expectativas iniciais, essa foi a avaliação feita por toda a equipe e esclarecida pelos debates entre os participantes. O Monitoramento do projeto acontecerá presencialmente a cada três meses, nesse sentido Fabiano (AGENDHA), se colocou à disposição durante os próximos meses, para responder a quaisquer dúvidas relacionadas ao sistema.


Edvalda Aroucha (AGENDHA) expressou sincera gratidão pela colaboração incansável de todos os envolvidos, o projeto está comprometido em apresentar um retorno detalhado em novembro, como parte do ciclo de monitoramento de três meses.


Em novembro, monitoramento do projeto continuará de perto. Os próximos passos agora que estão em foco é o repasse dos recursos, e uma nova capacitação que será conduzida pelo PNUD.  Esse encontro está programado para acontecer no período de 13 a 17 de novembro, e que terá como tema as boas práticas de manejo da caatinga. Edvalda ressaltou que eles entrarão em contato para alinhar todos os detalhes essenciais para o sucesso do evento.


Além disso, novembro se mostra um mês movimentado para o Povo Indígena Xucuru, com a participação do Coletivo Jupako Kreká no CBA (Congresso Brasileiro de Agroecologia) e, outras duas viagens para o Rio de Janeiro, juntamente com uma formação em agroecologia. Portanto, será necessário um planejamento cuidadoso dos compromissos nesse período.

Os líderes do projeto encerram a matéria expressando profundo agradecimento pelo comprometimento e contribuição essenciais de todos os envolvidos e destacam a importância contínua dessa colaboração para o sucesso contínuo do projeto.

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